Aos confrades,

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Saudações! 

Primeiramente quero desejar boas vindas a todos que acabaram de um modo ou outro, vindo parar aqui.

Com imensa satisfação inicio este trabalho. Mais do que um blog, proponho neste canal um resgate da arte poética e de valores que estão em desuso nos dias de hoje.

Se você também leva em si o respeito por tempos idos, esta é sua alcova.

A história de cada um


A vida é como uma folha de papel,
uma história a ser escrita.
Monocromática ou colorida,
não importa, vai ser lida.
 
E que pena, que como a tinta da pena,
a folha é como a vida, também finita.
Uma hora acaba o espaço
e ninguém escreve um novo parágrafo.

Fica só um legado, uma memória,
de uma vida em cores ou cinzenta,
que pode ser um erro sem música,
ou sem poesia o enterro, de toda uma vida.

Poesia é do coração a sangria,
a sangria que tempera o mundo,
e ai de quem leva a vida em papel por papel,
sem a escrever em verso, prosa ou soneto.

A vida é como uma folha de papel,
com uma história a ser escrita,
Monocromática ou colorida,
só não pode passar em branco.

Aviões de Papel

Marcado pela devassidão da natureza humana forjei-me.
Esqueci, sem querer, da pureza infantil que via aviões em papel.
Voei para longe daquele tempo em que brincava de pique esconde,
e, em um ioiô sem volta, fui, rodando como cabra cega.

Despi-me aos poucos da inocência, despedi-me da candura.
Sem encontrar folhas de parreira para me cobrir a nudez, meu expus.
Pus minhas cartas na mesa, cartas marcadas, como minhas marcas devassas,
e assim desbotei enquanto o mundo desbotava comigo.

Fiquei sem graça, sem pique para esconde-esconde.
Perdi a sensibilidade para ver aviões em papel e voar na imaginação.
Passei a viver rotina, rodando como ioiô, em uma velhice sem volta,
e marcado pela devassidão do tempo.

Felizmente, tempo não é faca cega, tem dois gumes.
Se tira, também traz, não se esconde, não perde o pique.
Faz o mundo girar, como ioiô, e tudo o que vai volta.
E eu, sem inocência, plantei uma semente que germinou.

Tão inocente, marcado pela pureza da criança e sua natureza.
Sem querer, deixa o tempo voar, junto com aviões de papel.
Roda roda, pula pula, pique esconde, te peguei! Sorriso de bebê.
Sem vergonha da nudez, se cobrindo só no frio enquanto nina em berço aquecido.

No sonho dos justos não imagina que o mundo irá girar de novo.
O ciclo se repetirá com o tempo, que nunca perde o pique, e é inútil se esconder.
Melhor é ensina-lo então, enquanto voa em aviões de papel,
a voar bem alto, para que desde pequenino fique sempre por perto de D´us.

Negro Alazão

Alazão, negro alazão que por tanto tempo me conduziu fundido como centauro em seu dorso.

Alazão, negro alazão que tanto trotou elegante em meio a escuridão que me cercava,

me fazendo um breve imponente, ainda que em vestes rotas e sorrisos vazios.

Alazão que me conduziu a prazeres imundos, me presenteou com ébrios amigos e amargas amantes.

Ah alazão chamado pecado, seu destino era a desgraça e seu futuro a morte!

E eu, morto cavaleiro, de entorpecentes cruzadas já estava cansado de pelejar.

Percebi então que minha luta era contra ti, oh alazão. Tu eras a fonte de minha ruína, a minha glória passageira e o corcel que me entorpecia.

Desarmei-me, te desmontei, desmontei-me.

Sem a pesada armadura que por tanto tempo escondeu minha fraqueza, desnudei-me apavorado.

Contemplei minha carcaça moribunda e carente de graça.

Ao reconhecer minha escuridão, pela primeira vez vi a luz, e minha cruzada findou em frente a cruz.

No madeiro de morte encontrei a vida. Agora nos braços de Cristo sou conduzido por planícies de paz e meus caminhos não são mais negros como ti, alazão que dei adeus.

(Allen Arruda – 22 de outubro de 2019)

O lobo do homem

Das planícies vi findar o dia que prometia eterno ser.

Posto réu, condenado fui a conviver com as brumas que flutuavam pela noite.

Aprendi a enxergar no escuro e encarar a face do abismo que um dia foi claro.

E é claro que, mais uma vez sobrevivi para contemplar o raiar da Aurora.

Um novo dia se fazia então.

Entronizado fui em uma alcatéia, como um estranho em meio a lobos.

E eu, logo o louco, réu de mim, me julgava o mais sábio daquele lugar.

Pudera! A minha loucura era olhar para o que de profundo havia,

como aquele abismo que outrora encarei.

Aprendi a ver intenções, corações e não metal.

A luz que emanava de pessoas simples era o farol a apontar felicidade.

Despretensiosos em ter, eram, e assim, tinham tudo o que os lobos não tinham.

Eram caçados, humilhados, mas viviam o que pregavam.

Tornaram-se então imortais e deixaram legados profundos e verdadeiros.

Desbotaram o brilho dos lobos, mergulhando-os no ostracismo abismal.

E eu que entronizado fui como estranho em uma alcatéia,

triunfante parti, renegando as memórias daquele dia que prometia ser eterno.

Ai de mim se eterno fosse aquele dia e eu vivesse para sempre como cego.

Eu me nego a não ver, juntei-me aos renegados, e este foi o meu alvorecer,

em um novo dia que se fez então!

 

 

(Allen Arruda – 09 de julho de 2019)

 

 

Germinare

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Quando o crepúsculo beijar a copa da velha sequoia,
Entrelaçando-a entre a noite que passou e o dia que virá,
Ver-se-á então a firmeza de um colosso posto guardião.

Quando suas raízes forem fortes e as tempestades incapazes de curva-la,
O sopro do vento será acalanto a suas velhas pinhas
que agora aguardam adormecidas nos braços da terra.

Quando enfim a alvorada despertar um novo dia,
uma nova Sequoia surge à sombra do colosso,
trazendo sentido então, a existência do gigante.

Quando Pequeno me Fiz

Pobre de mim que tanto tempo perdi, sonhando ser alguém,
que em meio aos prazeres da vida, debochava das responsabilidades.
Pobre pavão orgulhoso, que nada tinha além de belas penas.
Pobre piadista que fui, sem perceber que era a piada encarnada.

Pobre de mim que em meio a tanto conhecimento, era louco, apenas louco.
De nada valiam minhas dracmas, senão para embebedar-me em evanescentes ilusões.
Pobre minguante, caminhante da noite, prisioneiro das coisas vãs.
Pobre de mim, que de tão pequeno que era, tornei-me dócil tal cordeiro.

E quando cordeiro tornei-me, reconheci a voz do Bom Pastor e vi a sua face.
Ainda sou pobre, pobre de mim, mas cheio da Graça.
E aquela vida que piada foi, hoje é poesia. O Poeta dos poetas, quis assim.
E agora morto, estou mais vivo do que nunca, pois Cristo vive em mim.

(Allen Arruda – 02 de Setembro de 2016)

Depois da tempestade

Foi uma brisa tímida que tocou meus cabelos naquele setembro.
Passou por minha face e foi-se embora com tempo.
Mas quando o vento ganha força, vira tufão e gira o mundo.
E girando, girando, voltou-se a mim, soprando em meu peito.

Já não era brisa e tampouco vento. Tempestade era seu nome.
Molhou o solo seco e infértil que jazia morto em meu ser.
Soprou para longe todas as folhas secas que habitavam meu jardim,
e então, onde havia ervas daninhas, floresceu felicidade.

(Allen Arruda – 09/05/2016)

Vazio

Ontem questionei o sagrado,
se era ouro, ou apenas dourado.
Se era encanto, ou de sereia canto.
Quem sabe? Por enquanto pranto.

Ontem descri do amor, sendo ator.
Fingi que era livre, mas era pobre.
Pensei ser eu, mas eu sem mim.
E eu sem ela, ela quem? É o fim.

(Allen Arruda – 11/04/2016)

O Homem Bandeira!

Nasceu desgarrado do labor, forjou-se na arte da preguiça.

Não penteava os cabelos, não abotoava os últimos botões da camisa, e cheirando a cigarro adentrava em um boteco qualquer.

Entre pileques com outros vagabundos, muito tempo para pensar.
Pudera! A cabeça sempre vazia filosofava sobre todos os assuntos dos quais ele não conhecia. Tinha preguiça de ler.

Juntando as moedas para pagar mais um “rabo-de-galo”, sentia-se injustiçado pela sociedade; Não podia beber Whisky, e a culpa era da elite.

Não tinha denários, não aparava a barba e admirava Brizola. Dizia-se feliz por ser do povo, ainda que praguejando todos os dias contra a própria situação.

Era um artista da falácia. Se não pombo, papagaio. De pirata.

Coloria como Dali, da esquerda, surreais cenários sociais. Pintava de vermelho toda a esperança, assim como as pontas de nossos narizes!

Cultuava vilões, queria maconha, abortava ideias (diferentes das dele), e ainda assim sentia-se no direito de ser o futuro. Que futuro de merda!

Era o homem bandeira! Sinalizava ao mundo seu ideal, mas não servia para nada senão a isto.

(Allen Arruda – 29/03/2016)

As lamúrias de uma estrela

Era uma noite estrelada e sob o brilho de uma lua, cheia de lamúrias, adormeceu.
Pôs-se a sonhar que era de rei do mundo, e que o mundo seguia sua lei. Era o sacerdote da paz, o fazendeiro das multidões e o legislador da justiça.

Era uma noite estrelada e sob as lamúrias daqueles que o viam deitado na calçada, adormecia sorrindo. A cada segundo virtualmente vivendo, esquecia-se das negras brumas que cobriam seu planeta. Ainda que a chuva caísse dos céus, dos céus ele não saia, pois ali, naquele sonho, estava feliz.

Era a estrela da noite em seu sonho e em seus pés, com seu all-star roto pelo tempo. Pobre menino, não da lua, mas da rua, acordando de um sonho para viver seu pesadelo. Assim preferia, para sempre dormir.

(Allen Arruda – 11/02/2016)